Terça-feira, 13 de Fevereiro de 2007
Vilarinho da Furna - Textos
"Vilarinho da Furna"
Alfredo Mendes, in Rio Lindo, ed. Águas do Cávado
 
Era uma vez uma terra na paz profunda do vale. Ossadas de Vilarinho da Furna, albergando até ao tutano eco de almas, de viveres, gritos de saberes suspensos num tempo indizível. Tempo aferido por relógios de sol petrificados, povo de lembranças, quantas delas crestadas nos rostos de pedra que podeis enxergar quando as minhas águas rareiam. E então havereis de lhes chamar lápides falantes, lápides que calam fundo, ou não fossem pedra-lar dos serões aconchegados ao lume, «fias tu?, fio eu, minha mãe». Com o fumo evolam-se histórias de lendas, dos ursos pardos rondarem por ali; e sob a abóbada das varas dos enchidos o era uma vez continua no sonho e no sono das princesas encantadas, tranças de ouro bordejando-lhes o rosto. E assim o povo dormia amornado, levando na veia do coração o corpo da terra nua e crua.
Ao luar, sombras amortalhando um santuário de afectos para sempre sepultados. E supõem não haver uma alma penada pelos pecados do mundo nas margens sentada, queda e calada, respirando pulsares cobertos pelo espírito das águas mansas?
Essa a penitência na aldeia comunitária que já foi, na paz monacal que parecia ser. Lembranças de bordas de pão cozido pelas madrugadas do silêncio, seis rasas de milho para um quarto de rasa de centeio, o alimento diário. Se caía um naco ao chão? Beijavam-no com tal carinho que pareciam louvar o Menino Jesus na noite de Natal. Pão, fermento de vida. Vinho, fruto da videira e do trabalho do homem.
No regaço do vale expulsavam o vizinho por ter alugado casa a gente de fora. A respeitar, o... «entre quem é!» No regaço do vale cortaram cordões umbilicais, oraram pelos seus mortos, «dai-lhe, Senhor, eterno descanso» e pelo velório uma tecla de toucinho espreguiçada sobre o pão amaciado a goladas de bagaço. Rezavam-se trinta Padre-Nossos mais trinta Avé-Marias; depois, a estafa de levar o esquife ao ponto mais alto da terra, por acaso o mais perto do céu e a quem acompanhasse o morto até à última morada, um copo de vinho, uma ração de pão serventia da mantença, ao outro dia, comilança melhorada em santa obediência ao antigo culto dos mortos. Pão e vinho andam a caminho neste remoto ritual ao ar livre. Ai as manducagens nos enterros, uma mulher à frente do defunto a oferecer a Deus (padre), meia rasa de milho e meio quilo de toucinho.
O requiem de uma terra ainda sem sorte tocada, isso mesmo confiavam pastores e moleiros movendo-se nas suas terras de aluvião. No sopé da serra Amarela pedras de uma civilização em decrepitude, ao fundo, pinheiros bravos, carvalhos, azevinho com bolinhas vermelhas e no meio de tudo o Éden tinha a seu regalo gado suino, lanígero, bovino. Ah, lembra a alma a penar pelo renascer da Fénix, um tal Verdego, seja a Maria Joaquina, as casas eram de granito e soalhadas de carvalho, nos baixos currais ou lojas térreas, tanques para o vinho de ramada e de enforcado, onde ferviam mostos purpurinos e eu, rio mortalha, a pensar nos resquícios da velha têmpera daquelas mulheres, daqueles homens.
Na rudeza das pedras, velhos com olhos rasos de água por tanto amarem a terra dos seus amores continuam ir ali pôr flores no cemitério; continuam a ver casas colmeadas, a autoridade instituída a um zelador, responsável pela administração daquele povo agro-pastoril. Uma democracia ancestral, as cinco chagas da vara do zelador, ceptro sublime de um comunitarismo a resistir na serra distante do mundo. Povo ribeirinho a tecer, a sachar a hortaliça, a fazer o fumeiro, festa da abastança, a do sangue cozido. Povo carpinteiro, ferreiro, sapateiro, povo a erguer muros, a compor carros de bois. Sai a vezeira, cada um dos donos responsável por vigiar o gado de todos, ai a vezeira da rês, «Botai-la rês». À noite retornam as cabras mais o seu balido, um chocalhar ao clamor dos pastores, «Estrema! Estrema!».
Ouçam agora o toque do corno de cabra para a reunião no Chão do Forno, às quintas-feiras. Ouçam os brados de antanho, «Botai-la rês», outra vez, «Botai-la rês» e tende cuidado, muito cuidado com o acoitar dos lobos dominando cabeços e matagais. Nas batidas encaminhavam-nos para os fojos, toscamente vos descrevo, duas grandes paredes de pedra em ângulo agudo. Se mesmo assim as feras tinham fuga, aos zagalotes, meu povo!, e ei-los correndo feridos e exangues, através da abertura apertada até caírem no fosso coberto de folhas e de ramos. Adeus, adeus ao uivar à lua, e balbúrdia guerreira nos chavascais--alegria dos donos de ovelhas e cabras, mal sabendo que os animais também são bodes expiatórios com costas muito, muito largas. Mas disso pouca fé faziam caçadores e batedores, a hora era de comer e de beber, de entrar na terra alombando as feras mortas, dentes arreganhados, olhos vítreos de vida finda.
Facetas muitas, pelos barrancos contrabando até terras de Espanha entre matas de medronheiros, homens conhecedores de todas as pedras, de todas as pegadas, vigília aos ventos do céu atlântico, da boa-aventurança, da grande audácia. E emigraram além-Pirinéus, miragem de um pão menos rançoso. Para aí caminhava um povo ensimesmado pelos labores e pelas serras e pelos vales e pelo estio e pelas geadas. Não um povo de homiziados, mas um que sabia manejar o arado quadrangular, as gadanhas, as croças, a masseira, o forno. Povo que sabia mimar os currais com fenos e carvalhos, deixando-se cativar por um verde belíssimo aos primeiros raios de sol após as chuvas inverniças. Porque invernadas agrestes, ardem toros de carvalho, raízes de urze aquecendo a cozinha. Nos escanos, velhas embiocadas tremelicam ensalmos. Para os recos refocilando nas lojas, o caldeirão de cobre, a lavagem fumegante, negros potes de ferro fundido com caldo pronto a sorver num rugir animalesco. A família Trigo, a família Fecha vão à deita, o sono já espreita; camas com o desenho do sino-saimão, tal acontecia no jugo dos bois e... pelo sinal da Santa Cruz!
A cruz com barbichas de musgos nos espigueiros ou canastros do século XVIII, ripes de madeira assentes em pilares dotados de discos de pedra na parte superior, guardiões de espigas de milho e de seculares cravelhos. A cruz, ainda a cruz nos moinhos e a mó girando, girando... a farinha, sacos dela, o rodízio, a adelha, a seteira, o farfalhar da água... E a mula do moleiro? Sabe o caminho de cor e salteado quando o dono apanha uma destas carraspanas que precisa de ser levado à paz do doce lar e às azedas palavras da mulher.
Toda esta vivência abençoava a padroeira da terra, Nossa Senhora da Conceição, a oito de Dezembro. De ano para ano a incumbência de um vizinho organizar a efeméride; o cavalheiro, investido de anfitrião, sacrificava mais de dez cabras a que juntava dezenas de quilos de arroz e de pão. E viva a banda, sonante instrumento do sangue da festa-desforra. Comeres melhorados, já se sabe, nem só de boroa de milho, caldo de vagens, farinhatos no inverno, chouriços e sarrabulhos se lambuzar o povo. Nem só sopas de leite ou perdiz ou caçapo crivados de chumbo adentavam os filhos da terra. Nem só trutas e escalos no verão ziguezagueando pelo rio Homem euforizavam as suas vontades.
Ao cristianismo caldeavam rituais pagãos. Querem saber de um? Pela meia-noite de Natal saíam à rua com um cavalo aceso, tirado da lareira, ficando o povo a saber de que lado estava o vento. Do Norte? Ano frio. Do Sul? Ano quente. Do Nascente? Chuva quente. Do Poente? Chuva fria.
Contra toda a espécie de intempéries e maleitas se apelava aos antibióticos dos médicos e às benzedeiras mais os seus defumadouros, prática que nenhuma comunicação moderna logrará esfumar. Então havia que arrenegar a bruxaria, ou o sabbat de sinistras memórias. Medos velhos e revelhos amantizados com o sobrenatural, olhem ali o senhor padre intercedendo por S. Sebastião, advogado contra a fome, a peste e a guerra e o santo dando voltas à igreja em caso de calamidade nas terras. E os infortúnios aplacavam, pois tinham de aplacar, fosse à teima de comer à tripa-forra, ou para tal funçanata homem de fortes costados não botasse sentido. O senhor padre, olhem ainda para ele, afofando as botifarras nas encostas rochosas a declamar esconjuros ao Pai do Céu. Procissões, alminhas do Purgatório e... almas apaixonadas. Surgiam os casamentos, mal de amores desabrochando a todo o momento; noivas virgens?, outra a prática, laços, mais laços e lacinhos e a terra cogumelada de guarda-chuvas abertos.
                        Lá vem-no senhor doutor,
                        Com a lanceta na mão
                        Bem te dizia Laurinda
                        Que era na veia do coração.
 Nesses dias povo aperaltado na vestimenta, posto a lã, o linho, as croças de palha terem outro paradeiro no canto escuro da casa. Para as arcas o ataviar austero da solidão dos dias em que os homens usavam burel e aventais das costas transformando-os em figuras espectrais de arrepiar pelas encruzilhadas, também disso deu nota o investigador Jorge Dias.
A ganapada, essa, perseguia os garranos, não os da noite de Natal cobertos de luzes, qual?!, garranos selvagens em larga desfilada atravessando livremente a fronteira galega à velocidade do vento suão. E viam a beleza da vezeira da vaca que começava no dia um de Maio, terminando no dia de Todos-os-Santos.
Era uma vez uma terra na paz profunda do vale.
Era uma vez a família Geira, sessenta casas amontoadas, cabanas de pastores (furnas) para a pernoita durante os meses das vezeiras.
Era 1972 e aprisionaram o meu braço direito, Homem, nome de rio. Altura e largueza de albufeira. Precisão de quilovátio. Ficaram os esqueletos das casas e lodo, muito lodo. Ficaram os esqueletos das árvores ocas, dedos apontados ao céu e às consciências humanas.
Era uma vez uma ponte romana rodeada de flores que na lama parecem firmamento de estrelas velando aos mortos do cemitério, restos protegidos por um santo incógnito
Terra submersa, amores enterrados em lençóis de água. A velha alma a penar, lembram-se?, nas margens do Homem falando com os seus fantasmas e...
Era uma vez uma rapariga tão linda, tão linda que de Vilarinho da Furna teve de fugir sem a força impulsionadora de um poema:
                        Manuel é quem me ama,
                        Manuel é quem m´adora,
                        Manuel é quem me tira
                        Da minha casa p´ra fora.
 Permaneceram fantasmagóricas sobras de paredes, espigueiros, ruas, salas e quartos à vista quando as minhas águas descem, praticamente escoam e toleram revelar ao mundo a riqueza de um comunitarismo julgado pobre e eterno. Casas de ouro velho por acção e graça do sol na altura das vacas tornarem às lojas e o velho trazer para casa o burro pela arreata.

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publicado por MA às 20:39
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